O projecto digital do sotavento Algarvio (voltar)
por Airis Afonseca
À primeira vista, Raminhos Bispo, o fundador e director geral da Gráfica Tavirense, poderá não parecer o mais apaixonado entusiasta da impressão digital. Com 65 anos de idade, ar simpático e descontraído, e acima de tudo grande conversador, seria mais lícito imaginá-lo como um empresário gráfico atinado desde há muito com o offset e preocupado sobretudo com o acréscimo de ponto na impressão de um catálogo a quatro cores ou com o efeito de um verniz UV num fundo “chapão”.
E é verdade que esta pequena mas dinâmica gráfica está ligada ao offset já desde há bastantes anos. Tem várias máquinas de pequenos e médios formatos – entre elas uma Adast, uma Fuji, uma Heidelberg e uma Sakurai - e muitos trabalhos ainda são - e vão continuar a ser - feitos nelas. Mas também não é por isso que deixa de ser menos verdade que, pese todas estas primeiras impressões, é um dos expoentes máximos de como se consegue desbravar mercado em Portugal com a impressão digital. As suas andanças neste “outro mundo” remontam ao ano de 1996. Na altura, todo o seu trabalho era feito em offset e a impressão digital ainda estava nos seus primórdios mas Raminhos Bispo, sempre atento às novidades, começou a equacionar que uma máquina digital de médios volumes podia permitir-lhe fazer alguns trabalhos impossíveis até então com pequenas e pequenas-médias tiragens em que o mais importante para o cliente era não tanto a qualidade final do trabalho mas o prazo de entrega. “Não tínhamos filmadora”, diz ele, “e tudo o que era filmes tínhamos que ir a Loulé ou Albufeira fazer. Criar o trabalho em computador, ir lá tirar saídas, o cliente aprovar e não aprovar, fazer-se correções e avançar então com o trabalho, demorava dias e dias e havia casos em que o cliente simplesmente desistia de fazer o trabalho porque não estava para estar à espera”.
A máquina adquirida na altura foi uma Xerox 5750 que ainda hoje continua a trabalhar na empresa. “No começo”, refere Raminhos Bispo, “não sabíamos bem como é que isto funcionava. Apesar da Xesequipa (o concessionário da Xerox para artes gráficas no Algarve) nos ter ajudado na escolha e dado formação, estas questões dos Rip’s e a delicadeza destas máquinas com papéis, humidades e outras coisas, foram todas novidades para nós. Tivemos que passar pelo que se costuma designar como a rodagem do operador”. A partir daqui, o negócio do digital a desenvolver-se . Depois da 5750 foi comprada uma segunda máquina digital, uma DocCentre 220, para aumentar a capacidade de preto da empresa e, posteriormente, uma 470 e, há um ano, foi a vez de uma Docucolor 2045. “As máquinas têm-se todas pago a elas próprias. Temos uma grande sensibilidade sobre o que os nossos clientes querem e programamos as compras de acordo com o que prevemos serem as necessidades futuras deles, mas a compra desta 2045 meteu-nos algum receio. Era uma máquina substancialmente mais cara que qualquer uma das que já tínhamos tido até á altura e obrigava-nos a assegurar um volume de produção bastante maior do que estávamos habituados para a poder pagar todos os meses”, comenta o responsável pela gráfica algarvia.
Não obstante todos estes receios, a 2045 arrancou bem. A máquina é utilizada sobretudo para trabalhos de cor de qualidade média ou média-alta, como revistas e jornais regionais, catálogos, brochuras comerciais e outros. Muito embora esta máquina ainda esteja a ser paga, no começo deste ano, após uma visita a Barcelona, Raminho Bispo ficou particularmente entusiasmado com a nova DocuTech Tigris para impressão a preto e, vai daí, que há um mês atrás a Tavirense tomou a decisão de comprar a primeira máquina do género para o mercado português. A máquina destaca-se não só pela sua qualidade de impressão como também por vir já preparada para fazer registos, imposições e outros trabalhos que normalmente têm que ser feitos exteriormente. “É uma grande bomba!”, diz Raminhos Bispo, “mas eu, o meu filho António – que é o meu braço direito – e o resto da nossa equipa, temos todos que arranjar trabalho para ela. No fundo, é um pouco como temos feito com as outras máquinas. Os tempos não estão muito bons mas havemos de conseguir”.
Do pedal ao digital
Algarvio de nascimento e de coração, Raminhos Bispo começou a trabalhar nas artes gráficas aos 12 anos, primeiro fazendo trabalhos de apoio a colegas mais velhos e experimentados e depois, aos poucos, como oficial de máquinas. Em 1972, deixou Faro e mudou-se para Tavira para ir trabalhar no departamento gráfico do jornal “Povo Algarvio”,como chefe de produção, e que ainda trabalhava com máquinas a pedal. Se com o 25 de Abril a empresa sofreu algumas convulsões naturais para a altura mas aguentou-se no começo da década de oitenta, o falecimento de um dos sócios-gerentes da empresa acabou por ser mais problemático pois nem os seus descendentes nem os empregados, que entretanto ficaram a dirigir a empresa, se entenderam e ela entrou num lento mas inexorável colapso. Foi em face disto que Raminho Bispo decidiu abrir a sua própria empresa. Na altura, a sua paixão continuava a ser as velhas máquinas de pedal. Já quase ninguém as usava em Portugal mas o seu misto de máquinas e peças de museu juntamente com a sua maneabilidade continuavam a cativá-lo, e muito. Não obstante isto, a produtividade e qualidade muito maior das máquinas offset acabou por ditar que arrancasse a sua empresa com uma máquina de offset, uma Adast. Cedo percebeu e soube tirar partido deste tipo de máquinas mas, como o próprio admite, elas nunca o cativaram nem como as máquinas a pedal nem como as modernas máquinas de impressão digital. “Não tenho nada contra o offset”, diz ele, “e a prova disso é que desde que instalámos a Adast, em 1984, até hoje já comprámos seis máquinas de offset mas, decididamente, elas não têm a mesma graça que as máquinas antigas ou estas digitais. Tanto nas máquinas a pedal como nestas modernas, estamos mais em contacto com o papel, controlamos melhor o trabalho e percebemos mais facilmente o que podemos fazer para alterar alguma característica de produção. No offset, com os filmes, os cautchús, as secagens e outros parâmetros de produção que só indirectamente afectam a máquina, é tudo um pouco mais distante”.
Melhorias e melhorias
Com oito anos de experiência no mundo da impressão digital, Raminhos Bispo e a sua equipa da Gráfica Tavirense podem não saber ainda tudo desta emergente tecnologia, mas já sabem muita coisa. E isso nota-se também na forma cuidada como analisam este novo tipo de impressão. Não deixam de poupar-lhe elogios e assegurar que a impressão digital vai fazer cada vez mais parte do futuro mas também não deixam de se mostrar algo críticos a certos aspectos deste tipo de impressão que no seu entender têm ainda que ser melhorados. E um desses aspectos é, curiosamente, não tanto a impressão em si nem as máquinas mas os papéis que se podem usar nas mesmas. Segundo Raminhos Bispo, muito fabricantes de papéis para offset não perceberam ainda bem as características especiais dos papéis para a impresão digital. “Para nós que já usamos o digital é um problema e para os fornecedores de papel é uma oportunidade que estão a perder”, afirma. O responsável máximo da Tavirense mostra-se particularmente descontente com os papéis couché e que, no seu entender, ainda dão muitos problemas, sobretudo em termos de ondulação e na dobra pós-impressão. “Com os papéis IO já quase não há problemas mas com estes (os couchés) ainda temos muitas dores de cabeça. De tal forma que muitos trabalhos que nos pedem nestes papéis e que podiam ser feitos em digital, muitas vezes acabam por ser feitos nas nossas máquinas offset”, refere Raminhos Bispo. Juntamente com os papéis, a outra “grande dor de cabeça” nesta área são as avarias das máquinas que, embora sejam são cada vez menos, continuam a incomodar. “É certo e sabido que as máquinas digitais têm mais avarias que as de offset mas felizmente elas são cada vez mais fiáveis e a assistência técnica da Xerox aqui no Algarve está melhor de ano para ano. Mas ainda se pode melhorar também aqui. Só ficamos satisfeitos quando as máquinas não se avariarem nunca ou quando conseguirmos arranjar tudo o que se avarie, seja hardware, seja software, em minutos ou na pior das hipóteses em poucas horas. Há muita coisa que já conseguimos resolver sozinhos ou com a ajuda por telefone da central de assistência técnica da Xerox em Lisboa, mas podemos, e devemos, sempre desejar mais, não é?”, questiona Raminhos Bispo.
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