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Como se dá a volta à crise(voltar)
por Aires Afonseca

A crise atingiu todos na indústria gráfica e a Textype não foi excepção. Mas hoje é um exemplo de como, com organização e rigor, se pode ultrapassar uma fase má e ainda aprender lições valiosas.

A Textype, uma empresa gráfica especializada em trabalhos relacionados com arte, sentiu a crise que abrangeu toda a indústria gráfica duplamente porque à crise económica, que trouxe a uma quebra de trabalhos, juntou-se o que sentiram ser uma crise da pré-impressão. Amílcar Morais, director geral da Textype, justifica a “crise da pré-impressão” com o aumento da eficácia dos computadores: “houve uma mudança na maneira de fazer os trabalhos. Os computadores fazem cada vez mais coisas, fazem um trabalho mais completo e mais elaborado, o que faz com que o trabalho de pré-impressão propriamente dito diminua”. Mas, mesmo enfrentando esta dupla crise, a Textype conseguiu ultrapassar os tempos difíceis. Amílcar Morais acredita que o pior já passou, mas considera que a crise ainda não terminou: “já começamos a ‘cheirar’ a retoma, mas ela ainda não chegou. E eu vejo isto como? Por exemplo, estamos agora com 200 orçamentos, ao passo que no ano passado, pela mesma altura, tínhamos 2000”.

Portanto, numa fase em que ainda se está a “combater” a crise, o director geral refere que o que permitiu à Textype vencer o pior momento foi a fidelidade dos seus clientes fixos: “já tínhamos alguns bons clientes, clientes que não nos abandonaram, e que apesar da crise continuaram a dar-nos trabalho. Claro que nos pediam uma nova relação de preços, pediam-nos para baixar um bocadinho os preços, mas continuaram a dar-nos trabalho.” Especializados em trabalhos relacionados com arte, como catálogos para museus, fundações e galerias, a Textype tem entre os seus principais clientes a Fundação Gulbenkian, a Fundação Luso-Americana, a Fundação do Oriente e o Instituto de Camões.

Além dos referidos clientes fixos, a Textype também recorreu ao rigor e a uma reestruturação da empresa para enfrentar a recessão económica: “tivemos de aprender a ser mais rigorosos, mais ‘poupadinhos’, para não aumentarmos apenas os preços, mas também reduzir os custos”, explica o director geral. A reestrutração passou pela mudança de alguns funcionários em termos de área de trabalho e pela reforma antecipada de cerca de meia dezena de trabalhadores. “Mudámos pessoas de postos de trabalho, porque o trabalho de pré-impressão está a diminuir”, explica Amílcar Morais, acrescentando que “tivemos de rodar algumas pessoas, passá-las para outras áreas, como a área comercial, para fazer orçamentos e outras funções do género”. Ou seja, as alterações afectaram principalmente a área da pré-impressão, na qual alguns trabalhadores saíram e outros passaram para outros sectores.
Com a crise, outros problemas ganharam maior proporção, como foi o caso da questão dos pagamentos e recebimentos. Grande parte das empresas da área das artes gráficas teve de lidar com esta questão e a Textype não foi excepção. Porém, o facto de lidarem principalmente com clientes fixos minimizou um pouco o problema: “os recebimentos não estão famosos, mas como procuramos trabalhar para clientes firmes, fiéis, não costumamos ter problemas. Podem atrasar mas pagam. O problema são aqueles a que chamamos ‘clientes paraquedistas’, que surgem ocasionalmente. Com esses é que é preciso ter sempre ‘um pé atrás’”, explica. Em termos de pagamentos, a empresa teve também de “esticar um bocadinho mais do que o normal”, mas tem todos os pagamentos em dia: “estamos com o crédito normal que já tínhamos antes”, afirma Amílcar Morais.

A crise veio alterar um pouco o perfil da Textype. Se antes assumiam a posição de uma empresa essencialmente de pré-impressão, agora a impressão começou a ganhar mais importância na empresa, como afirma o próprio: “já não somos uma empresa principalmente de pré-impressão. Somos uma empresa de pré-impressão e de impressão”. Apesar da crescente importância da área da impressão na Textype, a parte da captação e tratamento da imagem, ou seja, a parte da pré-impressão, continua a ser aquela na qual a empresa é mais especializada. E se em alguns trabalhos que fazem, sempre na área das artes, assumem tanto a pré-impressão como a impressão, noutros ficam-se pela pré-impressão e passam a parte da impressão para outras empresas com quem normalmente trabalham, como a Fernandes & Terceiro e a Printer Portuguesa. Noutras ocasiões têm de assumir a responsabilidade pela parte da impressão, embora tenha sido feita por outra empresa. Sendo a sua especialidade trabalhos relacionados com a arte e a cultura, “trabalhos com requinte e de qualidade”, segundo explica Amílcar Morais, evitam os “livros das editoras”: “não são nem de longe o nosso forte. Fazemos algumas obras de livro mas não do tipo de editora, a preto e branco. Desses fazemos muito pouco”.

Há cerca de três anos, a Textype fez um forte investimento e num espaço de seis meses apetrecharam completamente a área de de impressão com uma nova guilhotina, uma máquina de coser, uma máquina de encadernar, entre outras. Estando habituados a trabalhar principalmente com o meio formato, 50x70 cm, tentam, com este investimento, estar preparados para outros formatos, nomeadamente os grandes formatos. E, uma vez que acabaram de pagar todo o novo equipamento, esperam começar agora a tirar os proveitos com esta nova capacidade de resposta.

Na área da impressão, são as máquinas de impressão da Heidelberg que dominam: “procuramos sempre que possível não comprar máquinas baratas, mas máquinas que façam um bom trabalho”, justifica Amílcar Morais. A útima aquisição para esta área foi uma Heidelberg Cylinder, uma máquina já com 30 anos. Originalmente uma máquina tipográfica, este equipamento, que custou cerca de 25 mil euros, serve agora para corte e vinco.
Na área da pré-impressão, as últimas aquisições foram um sistema de CtP Screen e o sistema de provas de cor Approval XP4 da Kodac. Em relação a futuras aquisições, o director geral não quis levantar o véu: “o segredo é a alma do negócio, mas posso dizer que temos planos a curto e médio prazo para fazermos novos investimentos em termos de equipamento. Temos sempre planos, porque parar é morrer.”

Quanto a futuros projectos de trabalho, vão alargar o trabalho que costumam fazer para o grupo PT. Já há alguns anos que fazem os relatórios de contas para o grupo PT, e agora vão alargar esse trabalho também à PT Multimédia e à PT Comunicações.

Com os principais clientes sediados na Grande Lisboa, a Textype nunca sentiu a necessidade de abrir uma sucursal numa outra zona do país. No entanto, também tem tido alguns clientes ocasionais em zonas como Beja, Ílhavo e Loulé. Nas instalações de Benfica há já seis anos, não sentem necessidade de mudar de novo de instalações, uma vez que não sentem falta de espaço: “na pré-impressão as máquinas de montagem começam a desaparecer e as outras a diminuir de volume, por isso o espaço da pré-impressão está a reduzir e a deixar espaço para outras coisas”, explica. No entanto, e devido à reestruturação que a empresa sofreu, tiveram de alugar um novo espaço, com ligação para as instalações, para onde passou a área de administração.
Esta empresa, que nasceu há quase um quarto de século, e que começou como uma empresa de fotocomposição, é hoje uma referência na área da pré-impressão: “primamos pela qualidade. Não temos vendedores na rua a tentar arranjar clientes, o trabalho é que aparece. Clientes que gostam do nosso trabalho indicam-nos a outros, e acho que isso mostra que devemos ter alguma peso nesta área”, afirma Amílcar Morais. E nesta fase, em que quase se pode vislumbrar a retoma no fundo do túnel, a Textype encara a crise de uma forma positiva, pois, além de ter feito uma selecção natural das empresas da área, porque “as que têm boa gestão e aguentaram a crise vão continuar e as que fecham vão deixar de ser concorrência”, como explica o director geral, ensinou uma lição valiosa à empresa gráfica: “a crise ensinou-nos a ser mais rigorosos, quer a nível da qualidade, quer a nível dos custos dos trabalhos”.