Impressos em papel ou seda, manuscritos e, por vezes, ilustrados, os menus permitem acompanhar a evolução da tipografia, da composição gráfica e dos suportes utilizados na comunicação de acontecimentos sociais.

É esta dimensão, a par do seu valor histórico e gastronómico, que pode ser descoberta na exposição «O Tempo à Carta – Menus, Memória e Cultura à Mesa», patente na Universidade Europeia, em Lisboa, até 30 de novembro.

A mostra reúne uma seleção de menus datados entre 1862 e 1932, provenientes da coleção reunida pelo gastrónomo e investigador Virgílio Nogueiro Gomes, posteriormente doada à Câmara Municipal de Cascais. A inauguração oficial está marcada para 16 de outubro, Dia Mundial da Alimentação, às 17h00, no campus da Quinta do Bom Nome.

Para além da informação gastronómica, os documentos expostos permitem observar como a apresentação gráfica de um menu acompanhava as convenções estéticas e sociais de cada época. A escolha dos materiais, a utilização de elementos decorativos, a caligrafia e a organização dos textos revelam diferentes formas de comunicar e conferir importância a um acontecimento.

Produzidos muitas vezes para uma única ocasião, estes menus constituem também exemplos de impressos efémeros que sobreviveram à função para a qual foram concebidos. Hoje, permitem estudar não apenas a história da alimentação, mas também as práticas de comunicação gráfica associadas à hotelaria, à diplomacia e aos eventos sociais.

Do papel à seda

O percurso expositivo começa em 1862, com um menu impresso para um jantar no Hotel do Louvre, em Paris. O primeiro exemplar português apresentado data de 6 de maio de 1876 e corresponde a uma refeição realizada no Palácio da Ajuda.

Entre os documentos associados à família real portuguesa encontram-se dois menus de 1886 do Palácio de Cascais, um dos quais preparado para assinalar o aniversário da rainha D. Maria Pia.

Um dos exemplares mais singulares da coleção é um menu de 16 de dezembro de 1901, impresso em seda azul, com texto em português numa face e em mandarim no verso. O documento foi produzido para um jantar oferecido por Portugal em homenagem ao imperador da China, no contexto de uma missão diplomática enviada por D. Carlos. A utilização de um suporte têxtil e a impressão em duas línguas tornam este exemplar particularmente interessante do ponto de vista da produção gráfica.

A exposição inclui ainda menus manuscritos de refeições realizadas no Paço de Vila Viçosa e documentos relativos a cerimónias e celebrações da família real. Entre eles encontra-se uma instrução para o serviço de mesa do almoço de aniversário do príncipe Luís Filipe, realizado a bordo do paquete África, em agosto de 1907.

O menu como objeto de comunicação 

Muito antes de o design gráfico se afirmar como disciplina autónoma, os menus já desempenhavam uma função de comunicação que ultrapassava a simples identificação dos pratos servidos.

A sua apresentação ajudava a estabelecer o carácter formal de uma refeição, a identificar a ocasião e, em determinados contextos, a transmitir o estatuto social dos anfitriões. Os elementos visuais e os materiais escolhidos faziam parte dessa linguagem.

A presença frequente do francês nos menus de refeições oficiais e de cerimónia é outro reflexo das convenções culturais da época. A par da seleção gastronómica, a própria composição do documento contribuía para a imagem que se pretendia transmitir aos convidados.

A coleção de Virgílio Nogueiro Gomes permite, assim, revisitar uma área da comunicação impressa que raramente ocupa lugar de destaque na história das artes gráficas: a produção de materiais destinados a acontecimentos específicos, concebidos para uma utilização breve, mas que acabaram por adquirir valor documental e patrimonial.

Autor de várias obras sobre gastronomia e história da alimentação, entre as quais Histórias e Curiosidades à Mesa, Dicionário Prático da Cozinha Portuguesa e Menus da Família Real, esta última em coautoria, Virgílio Nogueiro Gomes tem dedicado parte do seu trabalho à investigação das práticas alimentares e dos seus contextos históricos.

A inauguração contará com a presença de Hélia Gonçalves Pereira, reitora da Universidade Europeia, e de Virgílio Nogueiro Gomes, que apresentará a coleção e o enquadramento histórico dos exemplares selecionados.

«O Tempo à Carta – Menus, Memória e Cultura à Mesa» pode ser visitada gratuitamente no campus da Quinta do Bom Nome, em Lisboa, até 30 de novembro, durante o horário de funcionamento da Universidade Europeia.