Mais de 10 milhões de livros foram destruídos nos últimos meses em ataques contra armazéns e instalações ligadas ao setor editorial ucraniano, agravando a pressão sobre uma indústria já confrontada com custos de impressão mais elevados, longos ciclos de produção e dificuldades económicas provocadas pela guerra.
O episódio mais grave ocorreu no início de agosto, quando um ataque com drones atingiu o armazém da Ranok, em Kharkiv, no nordeste da Ucrânia, destruindo cerca de oito milhões de livros. A Ranok é uma das maiores editoras de literatura infantil do país e imprime aproximadamente um terço dos manuais escolares utilizados nas escolas ucranianas.
O ataque à Ranok não é um caso isolado. A editora BookChef perdeu cerca de 800 mil livros num ataque contra Kyiv a 2 de julho. Cerca de outros 100 mil exemplares foram posteriormente destruídos quando um armazém de reserva foi atingido.
Yevhen Shyrynos, editor-chefe da BookChef, admite já existirem sinais de crise no mercado editorial ucraniano, num contexto em que as empresas procuram reduzir riscos através da dispersão dos stocks e do alargamento da rede de fornecedores e impressores.
A recuperação é dificultada pelas características próprias da produção editorial. De acordo com os dados recolhidos pela Reuters junto do setor, um livro pode necessitar de seis a 18 meses entre produção e reposição, enquanto os custos de impressão aumentaram cerca de 40% nos últimos dois anos.
O aumento dos preços ocorre ao mesmo tempo que a capacidade de compra dos consumidores permanece pressionada pela situação económica, reduzindo a frequência de aquisição de livros.
Setor tinha beneficiado da procura por edições em ucraniano
Nos primeiros anos da guerra, o mercado editorial beneficiou do crescimento da procura por obras em língua ucraniana e das restrições às importações de livros russos. Esse impulso está agora a ser contrariado pelas perdas de capacidade produtiva e logística, pelo aumento dos custos e pela destruição repetida de inventários.
Os ataques a gráficas, editoras e armazéns assumem também uma dimensão cultural num país onde a língua e a produção editorial estão fortemente associadas à identidade nacional.
O ministro ucraniano da Educação, Andrii Butenko, classificou os ataques como uma tentativa de atingir a língua, a história e a memória do país.
Para as empresas do setor, contudo, o impacto traduz-se também em necessidades concretas de reposição de papel, impressão, acabamento, armazenamento e distribuição, num ambiente em que as infraestruturas logísticas continuam expostas a ataques.
A evolução da indústria editorial reflete uma pressão económica mais ampla. A economia ucraniana continua cerca de 20% abaixo do nível anterior à invasão, enquanto vários economistas antecipam uma desaceleração do crescimento em 2026 devido aos ataques continuados contra infraestruturas e cadeias logísticas.