As Zonas Especiais de Conservação (ZEC) da Rede Natura 2000 em Portugal continental registaram, entre 2021 e 2025, uma proporção de área ardida inferior à observada no restante território, segundo uma análise da WWF Portugal.

Enquanto fora das ZEC ardeu cerca de 6,1% da área disponível, no interior destas áreas de conservação a percentagem foi de 2,9%.

O estudo cruzou informação sobre áreas ardidas, ocupação do solo, habitats naturais e causas dos incêndios, procurando identificar de que forma o fogo tem afetado a biodiversidade e os territórios classificados para conservação da natureza.

No período analisado, 77% da área ardida localizou-se fora das ZEC e 23% no interior destas áreas. A WWF Portugal sublinha, contudo, que as ZEC ocupam apenas 21,3% do território continental, pelo que a comparação deve considerar a dimensão de cada área.

Os resultados contrariam conclusões de estudos recentes, à escala mediterrânica e global, que apontam para uma maior incidência de incêndios em áreas protegidas. A organização salienta, no entanto, que o período analisado é limitado a cinco anos e recomenda a repetição da análise com séries temporais mais longas.

Matos concentraram maior área ardida

Os matos foram o tipo de coberto vegetal mais afetado pelos incêndios em Portugal continental entre 2021 e 2025, representando 45% da área ardida. As florestas corresponderam a 43% e a área agrícola a 12%.

A relevância dos matos é ainda mais acentuada no interior das ZEC, onde concentraram 55,5% da área ardida, face a 37,7% fora destas zonas. Quando considerada a proporção de cada classe existente no território, os matos apresentaram valores semelhantes dentro e fora das ZEC, em torno dos 17%.

A vegetação esparsa registou a maior proporção de área ardida fora das ZEC, com 38,1%, mais do dobro do valor observado no interior destas áreas, de 17,4%. Em sentido inverso, as florestas de resinosas e de eucaliptos apresentaram uma proporção de área ardida superior nas ZEC, com 9,5% e 11,5%, respetivamente, comparando com 7,1% e 8,2% no exterior.

A WWF Portugal refere que a prevenção não deve centrar-se apenas em áreas florestais, defendendo que os habitats arbustivos e os mosaicos agroflorestais devem ser considerados nas estratégias de gestão do território e redução do risco de incêndio.

Causas intencionais têm maior peso nas ZEC

A categoria “Incendiarismo – Imputáveis”, integrada nas causas intencionais, foi a principal causa de incêndio identificada na análise. Representou cerca de 63% da área ardida no interior das ZEC e aproximadamente 34% fora destas áreas.

Segundo a WWF Portugal, a maior expressão relativa das causas intencionais nas ZEC exige investigação adicional, incluindo sobre possíveis fatores sociais associados a estes padrões. Fora das zonas classificadas, verificou-se uma maior presença relativa de causas naturais e negligentes, como incêndios resultantes de trovoadas ou do uso do fogo.

No interior das ZEC, os habitats classificados ao abrigo da Diretiva Habitats representaram 41,2% da área ardida, enquanto as áreas identificadas como não habitat corresponderam a 58,8%. Contudo, quando a análise considera a área total disponível em cada categoria, a incidência é praticamente idêntica: 8,48% nos habitats classificados e 8,55% nas áreas não classificadas.

As charnecas e matos de zonas temperadas concentraram 56% da área ardida nos habitats classificados das ZEC. Já na análise proporcional, os matagais apresentaram a maior incidência relativa de fogo, com 20,2%, seguidos pelas vertentes rochosas, com 19,7%, e pelas charnecas, com 16,9%.

A WWF Portugal defende que a localização e a delimitação dos habitats classificados devem ser integradas no planeamento operacional de prevenção e combate, incluindo nas faixas de gestão de combustível, nos Planos Municipais de Defesa da Floresta Contra Incêndios e no Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais.