Os fabricantes europeus de pasta e papel registaram, no primeiro trimestre de 2026, resultados maioritariamente inferiores ou semelhantes aos do período homólogo, num contexto marcado por custos mais elevados de energia, transporte, matérias-primas e produtos químicos.

A análise da Fastmarkets aponta para perspetivas cautelosas para o restante ano, com potenciais repercussões nos preços das embalagens à base de papel.

A escalada das tensões geopolíticas no Médio Oriente, incluindo o encerramento do estreito de Ormuz referido pelas empresas, contribuiu para aumentar a volatilidade nos mercados energéticos e pressionar os custos logísticos e de abastecimento. Vários grupos do setor indicaram já ter iniciado, ou preparado, medidas de atualização de preços, embora os efeitos dessas revisões tendam a chegar ao mercado com algum desfasamento.

Entre as empresas analisadas pela Fastmarkets estão International Paper/DS Smith, Metsä Group, MM Group, Mondi, Norske Skog, SCA, Smurfit Westrock, Södra, Stora Enso, The Navigator Company, UPM e Sappi.

Energia, logística e matérias-primas agravam custos

A Metsä Group registou vendas de 1,36 mil milhões de euros entre janeiro e março de 2026, abaixo dos 1,64 mil milhões de euros alcançados no período homólogo. A empresa passou de um lucro operacional de 51,4 milhões de euros no primeiro trimestre de 2025 para um prejuízo operacional de 17,7 milhões de euros em 2026.

A empresa referiu uma procura reduzida de pasta de mercado na Europa e na China, bem como uma diminuição dos volumes de cartão. Jussi Vanhanen, presidente e diretor executivo da Metsä Group, diz que a evolução positiva dos resultados está ameaçada, no curto prazo, pelo aumento dos custos de logística e matérias-primas associado ao encerramento do estreito de Ormuz.

A Mondi registou um EBITDA subjacente de 212 milhões de euros no primeiro trimestre de 2026, abaixo dos 290 milhões de euros registados no mesmo período do ano anterior. A empresa indicou que o aumento dos custos energéticos, de matérias-primas e de logística está a ser respondido através de medidas de preços, prevendo que o efeito integral dessas alterações se faça sentir no terceiro trimestre.

A MM Group reportou vendas consolidadas de 927,5 milhões de euros, uma redução de 11% face aos 1,04 mil milhões de euros do primeiro trimestre de 2025. A empresa identificou uma pressão relevante sobre os custos de energia, transporte e produtos químicos a partir de março, num mercado caracterizado por procura moderada, sobrecapacidade estrutural e concorrência intensa.

Cartão com atualizações de preços

A Smurfit Westrock manteve vendas de 7,7 mil milhões de dólares no primeiro trimestre, mas registou reduções homólogas de 14% no EBITDA e de 54% no resultado operacional. No segmento EMEA, a empresa indicou que os preços do papel para cartão canelado aumentaram durante março e abril, sobretudo devido aos custos energéticos e a uma melhoria da procura.

Tony Smurfit, presidente e diretor executivo da Smurfit Westrock, afirmou que o aumento será repercutido no negócio de cartão canelado com o habitual intervalo temporal, prevendo-se que o efeito se torne mais visível na segunda metade do ano.

A Norske Skog apresentou um desempenho positivo no papel para embalagens, com entregas recorde de cartão canelado reciclado de 106 mil toneladas no trimestre. A empresa associou a evolução à melhoria da eficiência operacional, à estabilidade dos preços e a uma maior proporção de entregas no mercado europeu.

No caso da International Paper/DS Smith, o segmento Packaging Solutions EMEA registou um prejuízo operacional de 51 milhões de dólares. As vendas líquidas atingiram 2,3 mil milhões de dólares, acima dos 1,6 mil milhões de dólares do período homólogo, impulsionadas por maiores volumes de vendas. A empresa indicou que os preços do papel diminuíram, mas foram compensados por melhores margens na embalagem.

A The Navigator Company registou vendas de 426,8 milhões de euros no primeiro trimestre, abaixo dos 529,3 milhões de euros no mesmo período de 2025. O lucro operacional caiu 69%, para 22,9 milhões de euros, enquanto o EBITDA diminuiu 44%, para 64,8 milhões de euros.

A empresa associou o desempenho à volatilidade económica e geopolítica, ao aumento dos preços da energia e aos impactos nas cadeias de abastecimento e nos fluxos logísticos. Em Portugal, a Navigator referiu ainda que episódios meteorológicos severos, nomeadamente associados à depressão Kristin, provocaram perturbações temporárias em algumas operações industriais de Figueira da Foz e Vila Velha de Ródão.

A Navigator mantém a decisão de investir numa nova máquina de tissue na fábrica de Aveiro, com capacidade anual de 70 mil toneladas. O investimento, estimado em cerca de 115 milhões de euros, deverá beneficiar de apoio do Portugal 2030, estando o arranque da nova unidade previsto para março de 2028.

Procura limitada mantém perspetivas cautelosas

A SCA, a Södra e a Stora Enso referiram igualmente o impacto dos preços mais baixos, dos custos de matérias-primas, dos efeitos cambiais e da procura limitada em vários segmentos. A Stora Enso manteve vendas estáveis, próximas de 2,4 mil milhões de euros, mas viu o resultado operacional cair de 171 milhões para 85 milhões de euros.

Hans Sohlström, presidente e diretor executivo da Stora Enso, afirmou que as tensões geopolíticas deverão aumentar a incerteza e elevar o risco de custos mais elevados, sobretudo em energia, logística e produtos químicos, com efeitos mais evidentes no segundo trimestre.

A UPM destacou-se pela melhoria dos resultados, com um aumento de 29% no lucro operacional, para 255 milhões de euros. Ainda assim, a empresa referiu que os acontecimentos geopolíticos continuam a introduzir novas incertezas na atividade.

Para os compradores de embalagens de papel, cartão e cartão canelado, os resultados do primeiro trimestre sugerem um contexto de pressão continuada sobre as margens dos produtores. A atualização dos preços da energia, do transporte, das matérias-primas e dos químicos poderá refletir-se progressivamente nos custos de embalagem ao longo de 2026.