Um projeto finlandês conseguiu utilizar subprodutos da torrefação de café como matéria-prima para uma tinta flexográfica à base de água, testada em agosto numa produção industrial de sacos de papel.
A tecnologia resulta de um trabalho iniciado pela Tampere University of Applied Sciences (TAMK), em colaboração com a Natural Indigo Finland, BioInk, Meira e Siegwerk, a que se juntou, nesta fase, a alemã Hornung Verpackungen.
O interesse do desenvolvimento está sobretudo no componente responsável pela cor. Em vez de recorrer exclusivamente a matérias-primas sintéticas, o projeto utiliza um colorante obtido a partir de subprodutos da indústria do café, fornecidos pela torrefadora finlandesa Meira.
A Siegwerk integrou esse colorante numa formulação industrial recorrendo à tecnologia BioInk, da Natural Indigo Finland. No ensaio realizado em agosto, a tinta foi utilizada na impressão de sacos de papel de fundo cruzado nas instalações da Hornung Verpackungen.
Os parceiros consideram que o teste demonstrou compatibilidade com as condições reais de produção, tanto em qualidade de impressão como no comportamento da tinta durante o processo. Não foram, contudo, publicados resultados quantitativos relativos a velocidade de máquina, viscosidade, densidade ótica, resistência à abrasão ou outros parâmetros que permitam comparar diretamente esta formulação com tintas flexográficas convencionais.
O desenvolvimento começou há cerca de dois anos, no âmbito do grupo de investigação Biocolores da TAMK, dedicado à obtenção de colorantes de base biológica a partir de subprodutos industriais.
Em 2025 foi dado o primeiro passo para fora do laboratório. Uma tinta à base de água produzida com o colorante proveniente do café foi utilizada pela Cabassi na impressão flexográfica de sacos fabricados em material Paptic. O teste funcionou como proof of concept para avaliar o comportamento da formulação num processo industrial.
Desde então, a equipa trabalhou no aumento da força de cor e no desempenho técnico da tinta, preparando-a para aplicações e condições de produção mais exigentes. O novo ensaio realizado em agosto representa, segundo a TAMK, mais um passo no processo de aproximação à produção comercial.
“Temos investigado há vários anos a valorização de fluxos secundários industriais para produzir colorantes de maior valor. Esta inovação tem um potencial significativo na impressão flexográfica e noutras aplicações”, afirmou Kai Lankinen, investigador principal e responsável pelo grupo Biocolores da Tampere University of Applied Sciences.
A tinta utilizada no teste é de base aquosa. De acordo com os parceiros do projeto, não gera emissões de compostos orgânicos voláteis, VOC, durante a utilização e utiliza como ligante um verniz técnico da Siegwerk com uma elevada proporção de matérias-primas renováveis.
Esta combinação procura atuar em duas componentes distintas da formulação. Enquanto parte do desenvolvimento de tintas com maior incorporação de matérias-primas renováveis tem incidido nos ligantes, o projeto finlandês procura fazer o mesmo com o componente responsável pela cor.
“Este colorante proveniente do café enquadra-se muito bem no nosso portefólio de produtos com matérias-primas biorrenováveis. O desenvolvimento de tintas mais sustentáveis tem-se concentrado frequentemente nos ligantes renováveis. Os colorantes derivados do café ajudam a completar essa abordagem”, afirmou Paul Pain, Global Head of Waterbased Technology da Siegwerk.
A matéria-prima utilizada pela Meira tinha anteriormente como destino a recuperação energética. O projeto procura introduzir uma utilização intermédia de maior valor, aproveitando esse fluxo secundário como fonte de cor antes do seu destino final.
Para a indústria gráfica, o próximo desafio será perceber se o comportamento conseguido nesta produção pode ser mantido em tiragens maiores e com requisitos mais exigentes de estabilidade, força de cor e repetibilidade. Permanecem igualmente por divulgar dados comparativos sobre custo, durabilidade da impressão e impacto ambiental ao longo do ciclo de vida.
Não foi ainda anunciada uma data para o lançamento comercial da tinta nem uma capacidade prevista de produção. O ensaio mostra, porém, que a investigação já ultrapassou a fase exclusivamente laboratorial e está a ser testada diretamente em processos industriais de impressão flexográfica.